...

Mostrando postagens com marcador Pra alma. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pra alma. Mostrar todas as postagens

sábado, 2 de julho de 2011

Carta a todos os povos da terra

O Sol me acordou dançando no meu rosto. Pela manhã, atravessou a palha da
oca e brincou com meus olhos sonolentos. O irmão Vento, mensageiro do Grande
Espírito, soprou meu nome, fazendo tremer as folhas das plantas lá fora. Eu
sou Mutua, cacique da aldeia dos Xavantes. Na nossa língua, Xingu quer dizer
água boa, água limpa. É o nome do nosso rio sagrado. Como guiso da serpente,
o Vento anunciou perigo. Meu coração pesou como jaca madura, a garganta
pediu saliva. Eu ouvi. O Grande Espírito da floresta estava bravo. Xingu
banha toda a floresta com a água da vida. Ele traz alegria e sorriso no
rosto dos curumins da aldeia. Xingu traz alimento para nossa tribo.
Mas hoje nosso povo está triste. Xingu recebeu sentença de morte. Os
caciques dos homens brancos vão matar nosso rio. O lamento do Vento diz que
logo vem uma tal de usina para nossa terra. O nome dela é Belo Monte. No
vilarejo de Altamira, vão construir a barragem. Vão tirar um monte de terra,
mais do que fizeram lá longe, no canal do Panamá.

Enquanto inundam a floresta de um lado, prendem a água de outro. Xingu vai
correr mais devagar. A floresta vai secar em volta. Os animais vão morrer.
Vai diminuir a desova dos peixes. E se sobrar vida, ficará triste como o
índio.

Como uma grande serpente prateada, Xingu desliza pelo Pará e Mato Grosso,
refrescando toda a floresta. Xingu vai longe desembocar no Rio Amazonas e
alimentar outros povos distantes. Se o rio morre, a gente também morre, os
animais, a floresta, a roça, o peixe tudo morre. Aprendi isso com meu pai, o
grande cacique Aritana, que me ensinou como fincar o peixe na água, usando a
flecha, para servir nosso alimento.

Se Xingu morre, o curumim do futuro dormirá para sempre no passado, levando
o canto da sabedoria do nosso povo para o fundo das águas de sangue. Pela
manhã, o Vento me levou para a floresta. O Espírito do Vento é apressado,
tem de correr mundo, soprar o saber da alma da Natureza nos ouvidos dos
outros pajés. Mas o homem branco está surdo e há muito tempo não ouve mais o
Vento.

Eu falei com a Floresta, com o Vento, com o Céu e com o Xingu. Entendo a
língua da arara, da onça, do macaco, do tamanduá, da anta e do tatu. O Sol,
a Lua e a Terra são sagrados para nós. Quando um índio nasce, ele se torna
parte da Mãe Natureza. Nossos antepassados, muitos que partiram pela mão do
homem branco, são sagrados para o meu povo.

É verdade que, depois que homem branco chegou, o homem vermelho nunca mais
foi o mesmo. Ele trouxe o espírito da doença, a gripe que matou nosso povo.
E o espírito da ganância que roubou nossas árvores e matou nossos bichos. No
passado, já fomos milhões. Hoje, somos somente cinco mil índios à beira do
Xingu, não sei por quanto tempo.

Na roça, ainda conseguimos plantar a mandioca, que é nosso principal
alimento, junto com o peixe. Com ela, a gente faz o beiju. Conta a história
que Mandioca nasceu do corpo branco de uma linda indiazinha, enterrada numa
oca, por causa das lágrimas de saudades dos seus pais caídas na terra que a
guardava.

O Sol me acordou dançando no meu rosto. E o Vento trouxe o clamor do rio que
está bravo. Sou corajoso guerreiro, não temo nada.

Caminharei sobre jacarés, enfrentarei o abraço de morte da jiboia e as
garras terríveis da suçuarana. Por cima de todas as coisas pularei, se
quiserem me segurar. Os espíritos têm sentimentos e não gostam de muito
esperar.

Eu aprendi desde pequeno a falar com o Grande Espírito da floresta. Foi num
dia de chuva, quando corria sozinho dentro da mata, e senti cócegas nos pés
quando pisei as sementes de castanha do chão. O meu arco e flecha seguiam a
caça, enquanto eu mesmo era caçado pelas sombras dos seres mágicos da
floresta. O espírito do Gavião Real agora aparece rodopiando com suas
grandes asas no céu. Com um grito agudo perguntou: Quem foi o primeiro a
ferir o corpo de Xingu? Meu coração apertado como a polpa do pequi não tem
coragem de dizer que foi o representante do reino dos homens. O espírito do
Gavião Real diz que se a artéria do Xingu for rompida por causa da barragem,
a ira do rio se espalhará por toda a terra como sangue e seu cheiro será o
da morte.

O Sol me acordou brincando no meu rosto. O dia se abriu e me perguntou da
vida do rio. Se matarem o Xingu, todos veremos o alimento virar areia.

A ave de cabeça majestosa me atraiu para a reunião dos espíritos sagrados na
floresta. Pisando as folhas velhas do chão com cuidado, pois a terra está
grávida, segui a trilha do rio Xingu. Lembrei que, antes, a gente ia para a
cidade e no caminho eu só via árvores.

Agora, o madeireiro e o fazendeiro espremeram o índio perto do rio com o
cultivo de pastos para boi e plantações mergulhadas no veneno. A terra está
estragada. Depois de matar a nossa floresta, nossos animais, sujar nossos
rios e derrubar nossas árvores, querem matar Xingu.

O Sol me acordou brincando no meu rosto. E no caminho do rio passei pela
Grande Árvore e uma seiva vermelha deslizava pelo seu nódulo. Quem arrancou
a pele da nossa mãe? gemeu a velha senhora num sentimento profundo de dor.
As palavras faltaram na minha boca. Não tinha como explicar o mal que trarão
à terra. Leve a nossa voz para os quatro cantos do mundo clamou O Vento
ligeiro soprará até as conchas dos ouvidos amigos ventilou por último,
usando a língua antiga, enquanto as folhas no alto se debatiam.

Nosso povo tentou gritar contra os negócios dos homens. Levamos nossa gente
para falar com cacique dos brancos. Nossos caciques do Xingu viajaram
preocupados e revoltados para Brasília. Eu estava lá, e vi tudo acontecer.

Os caciques caraíbas se escondem. Não querem olhar direto nos nossos olhos.
Eles dizem que nos consultaram, mas ninguém foi ouvido.

O homem branco devia saber que nada cresce se não prestar reverência à vida
e à natureza. Tudo que acontecer aqui vai voar com o Vento que não tem
fronteiras. Recairá um dia em calor e sofrimento para outros povos distantes
do mundo.

O tempo da verdade chegou e existe missão em cada estrela que brilha nas
ondas do Rio Xingu. Pronta para desvendar seus mistérios, tanto no mundo dos
homens como na natureza.

Eu sou o cacique Mutua e esta é minha palavra! Esta é minha dança! E este é
o meu canto!

Porta-voz da nossa tradição, vamos nos fortalecer. Casa de Rezas, vamos nos
fortalecer. Bicho-Espírito, vamos nos fortalecer. Maracá, vamos nos
fortalecer. Vento, vamos nos fortalecer. Terra, vamos nos fortalecer. Rio
Xingu! Vamos nos fortalecer!
Leve minha mensagem nas suas ondas para todo o mundo: a terra é fonte de
toda vida, mas precisa de todos nós para dar vida e fazer tudo crescer.
Quando você avistar um reflexo mais brilhante nas águas de um rio, lago ou
mar, é a mensagem de lamento do Xingu clamando por viver.

Cacique Mutua",
Xingu, Pará, Brasil, 08 de junho de 2011.

Fonte:
http://www.inesc.org.br/noticias/noticias-gerais/2011/junho/carta-do-caique-
mutua-sobre-belo-monte/?searchterm=None

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Momentos bons ficam...

Um momento nostalagia.. que me trouxe bons achados!

"É bem assim que estou, é tudo que restou
Eu tive que escolher entre eu e te perder
Que pena, tudo acabou


Eu cresci e agora sou mulher
Tenho que encarar com muita fé

Seria o bastante

Eu vou seguir o meu caminho
E te esquecer
Pensar um pouco em mim, tentar viver

Seria o bastante

O que é imortal, não morre no final
E se distante é assim
Isso não vai ter fim
Nem se eu quiser você sai de mim

Eu já tentei mas te esquecer assim não dá
Quem escolheu fui eu, e tenho que aceitar
Mas não foi erro meu, você no meu lugar
Faria exatamente igual


O que é imortal..."

Imortal - Sandy & Júnior

sábado, 16 de abril de 2011

Morrer.. dormir: não mais



"Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e setas
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provocações
E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais.
Dizer que rematamos com um sono a angústia
E as mil pelejas naturais-herança do homem:
Morrer para dormir… é uma consumação
Que bem merece e desejamos com fervor.
Dormir… Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:
Pois quando livres do tumulto da existência,
No repouso da morte o sonho que tenhamos
Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita
Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.
Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo,
O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,
Toda a lancinação do mal-prezado amor,
A insolência oficial, as dilações da lei,
Os doestos que dos nulos têm de suportar
O mérito paciente, quem o sofreria,
Quando alcançasse a mais perfeita quitação
Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos,
Gemendo e suando sob a vida fatigante,
Se o receio de alguma coisa após a morte,
–Essa região desconhecida cujas raias
Jamais viajante algum atravessou de volta –
Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos?
O pensamento assim nos acovarda, e assim
É que se cobre a tez normal da decisão
Com o tom pálido e enfermo da melancolia;
E desde que nos prendam tais cogitações,
Empresas de alto escopo e que bem alto planam
Desviam-se de rumo e cessam até mesmo
De se chamar ação.
(…)”

William Shakespeare

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Déjà vu - Metamorfose II

Existem milhões de insetos almáticos.
Alguns rastejam, outros poucos correm.
A maioria prefere não se mexer.
Grandes e pequenos.
Redondos e triangulares,
de qualquer forma são todos quadrados.
Ovários, oriundos de variadas raízes radicais.
Ramificações da célula rainha.
Desprovidos de asas,
não voam nem nadam.
Possuem vida, mas não sabem.
Duvidam do corpo,
queimam seus filmes e suas floras.
Para eles, tudo é capaz de ser impossível.
Alimentam-se de nós, nossa paz e ciência.
Regurgitam assuntos e sintomas.
Avoam e bebericam sobre as fezes.
Descansam sobre a carniça,
repousam-se no lodo,
lactobacilos vomitados sonhando espermatozóides que não são.
Assim são os insetos interiores.

A futilidade encarrega se de "mais tralos'.
São inóspitos, nocivos, poluentes.
Abusam da própria miséria intelectual,
das mazelas vizinhas, do câncer e da raiva alheia.
O veneno se refugia no espelho do armário.
Antes do sono, o beijo de boa noite.
Antes da insônia, a benção.

Arriscam a partilha do tecido que nunca se dissipa.
A família.
São soníferos, chagas sem curas.
Não reproduzem, são inférteis, infiéis, "infértebrados".
Arrancam as cabeças de suas fêmeas,
Cortam os troncos,
Urinam nos rios e nas somas dos desagravos, greves e desapegos.
Esquecem-se de si.
Pontuam-se
A cria que se crie, a dona que se dane.
Os insetos interiores proliferam-se assim:
Na morte e na merda.

Seus sintomas?
Um calor gélido e ansiado na boca do estômago.
Uma sensação de: o que é mesmo que se passa?
Um certo estado de humilhação conformada o que parece bem vindo e quisto.
É mais fácil aturar a tristeza generalizada
Que romper com as correntes de preguiça e mal dizer.
Silenciam-se no holocausto da subserviência
O organismo não se anima mais.
E assim, animais ou menos assim,
Descompromissados com o próprio rumo.
Desprovidos de caráter e coragem,
Desatentos ao próprio tesouro...caem.
Desacordam todos os dias,
não mensuram suas perdas e imposturas.
Não almejam, não alma, já não mais amor.
Assim são os insetos interiores.

Insetos interiores - Fernando Anitelli

sábado, 31 de julho de 2010

A Lista


"Faça uma lista de grandes amigos:

Quem você mais via há dez anos atrás?
Quantos você ainda vê todo dia?
Quantos você já não encontra mais?
Faça uma lista dos sonhos que tinha:

Quantos você desistiu de sonhar?
Quantos amores jurados pra sempre?
Quantos você conseguiu preservar?

Onde você ainda se reconhece:

Na foto passada ou no espelho de agora?

Hoje é do jeito que achou que seria?

Quantos amigos você jogou fora?

Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?

Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?

Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?

Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?

Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?

Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?
"

A Lista - Oswaldo Montenegro

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Ás vezes é bom abrir os olhos ... e olhar pra si.

 E eu aprendi que pra ser imune a dores, é preciso senti-las primeiro.

Aprendendo a ser forte

"Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes, não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.

E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.

Depois de um tempo você aprende que o sol queima se fixar exposto por muito tempo.

E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam...
E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso.

Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.
Descobre que leva-se anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-las, e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida.

Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias.

E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher...

Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa , por isso, sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas...

Aprende que as circunstâncias e os ambientes tem influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser.

Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto. Aprende que não importa onde já chegou, mas onde está indo, mas se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve.

Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja a situação, sempre existem dois lados.

Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que algumas vezes, a pessoa que você espera que o chute quando você cai, é uma das poucas que o ajuda a levantar-se.

Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas, do que com quantos aniversários você celebrou.

Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha...

Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.

Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar.

Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo. Aprende que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado.
Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte. Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás.

Portanto plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores. E você aprende que realmente pode suportar... que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida".

 Veronica Shoffstall

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

...

"É uma verdade incrível como a existência da maior parte dos homens é insignificante e destituída de interesse, vista exteriormente, e como é surda e obscura sentida interiormente. Consta apenas de tormentos, aspirações impossíveis; é o andar cambaleante de um homem que sonha através das quatro épocas da vida, até a morte, com um cortejo de pensamentos triviais.  Os homens assemelham - se a relógios que se dá corda e trabalham sem saber a razão. E sempre que um homem vem a este mundo, o relógio da vida humana recebe corda novamente, para repetir mais uma vez, o velho e gasto estribilho da eterna caixa de música , frase por frase, com variações imperceptíveis."

Arthur Schopenhauer